Agradecimentos

Aos amigos Antonio Carlos Secchin, Arnaldo Niskier e Carlos Nejar, pela leitura atenta e seleção dos poemas deste livro.

Apresentação

A Poesia ronda a minha vida faz muito tempo. Uma dádiva, às vezes uma inquietude, outras a vontade de criar novas realidades com consciência ou não do que se passa, ao colocar cada verso no papel. Hora de ser passarinho, gaivota. Voar alto ou rasteiro é o que menos importa. Vale ganhar novos ares, seguir sem rumo, norte ou sul, sair de dentro, explodir sem dinamite, dar cores ao mundo, ver o pequenino como se fosse imenso.

 

Muitas vezes não dá para separar dois mundos que em mim são um só – pintar e poetar. As cores, as tintas com suas nuances saltam da palheta para o papel numa perfeita fusão - assim é, não há como negar.

Em qualquer papel os escrevo, em qualquer lugar, em momento qualquer, rodando pelo mundo, pela cidade, parando nos sinais, seguindo em frente. No computador, em pasta especial, lá estão.

Vale tudo para não os aprisionar em mim. E aí, um dia, separo um monte deles e os envio a três amigos: Niskier, Secchin e Nejar (1), com carta branca para riscar, cortar, rabiscar. Depois foram também para Solange (2), amiga de tantas horas, com o mesmo recado.

Hoje estão aqui os que tiveram a aprovação de todos, para minha alegria. Comparto esse momento tão especial para mim com VOCÊ.

Marlene Blois
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(1) Arnaldo Niskier, Antonio Carlos Secchin e Carlos Nejar, escritores e acadêmicos da ABL/Academia Brasileira de Letras.
(2) Solange Gerardin Poirot Leobons, professora universitária, colega dos tempos do Curso de Letras da FAHUPE.

 

Epígrafe

O poeta é um pintor que sabe dizer as coisas
com palavras, ele navega tanto nos mistérios
da percepção e intuição, quanto no mundo verbal.
Ferreira Gullar*
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Um dia serei feliz?
Sim, mas não há de ser já:
A Eternidade está longe,
Brinca de tempo-será.
Manuel Bandeira**

*Palestra sobre artes plásticas proferida pelo Poeta, na Casa do Saber, Rio de Janeiro, em 04/05/2011.
** TEMPO-SERÁ. BANDEIRA, Manuel. Poesia Completa e Prosa.Rio de Janeiro, José Aguilar Editora, 1974, p.278.

 

Prefácio

Pacto com a Vida

Arnaldo Niskier Da Academia Brasileira de Letras

“Conto é tudo aquilo que chamamos de conto.”

Uma vez ouvi essa frase do imortal Josué Montello. Ela nunca saiu da minha mente.

Quando tenho o enorme prazer de ler o primeiro livro de poesias de Marlene Blois, uma querida amiga de muitos anos, volto ao pensamento do escritor maranhense para proclamar que a poesia não pode ser tudo aquilo que chamamos de poesia. Tem particularidades que a tornam singular, como gênero literário.

Marlene – e isto não é lugar comum – tornou-se poeta de rara sensibilidade, o que já havia demonstrado quando enveredou, com brilho, também pelos caminhos da pintura. Tudo isso depois dos muitos anos de exercício da sua paixão pelo magistério, que acompanho desde os tempos em que trabalhou, de forma extremamente competente, no saudoso Projeto Minerva, pilotado pela Rádio Ministério da Educação do Rio.

Em seus poemas é possível vivenciar as sinuosidades do tempo, revelando várias épocas, com reminiscências sobre o pensar e o sentir, que ela domina com rigorosa propriedade. Nem sempre são lembranças alegres. A tristeza está presente quando, metaforicamente, relembra perdas irreparáveis, presentes em sua vida. O verso, então, passa a ser uma forma de renascer, com a energia da esperança.

Fernando Pessoa é sempre uma boa lembrança:

“Só aos poetas e aos filósofos compete a visão prática do mundo,
porque só a esses é dado não ter ilusões.”

Para fazer uma boa poesia, de leitura agradável, Marlene expõe algumas ilusões que alimentam a sua inspiração. E aí pode estar representada a conquista de momentos especiais, nesta obra de fina sensibilidade literária.

Podemos nos inquirir sobre a felicidade. Onde ela se encontra? Não há uma boa resposta para essa dúvida, mas há tentativas, como faz Marlene Blois, de tocar em seus limites, como se fosse uma significativa meta a ser alcançada. Ela foi feliz em seus versos.

Trata-se de uma obra, por isso mesmo, altamente recomendável.

Rio de Janeiro, 23 de setembro (início da primavera) de 2010.


 

Um Poema

Metamorfose

Eu fui deixando a vida escorrer de manso.
Eu fui deixando o tempo caminhar sem marca.
Eu fui deixando a mágoa deslizar sem pressa.
Eu fui deixando os braços se abrirem ao nada.
Sem me deter no espaço,
Pisei o mundo.
Magoei a mim.
O vento soprou as folhas.
O mar bateu na areia em vão.
A nuvem virou tempestade.
O rio levou tanta gente.
A pedra rolou pelo chão.
A lua gerou a noite.
O barco singrou o verde.
A ave riscou o azul.
O amor sangrou o peito.
O riso morreu na boca.
A mão buscou o amigo.
A mágoa escorreu nos olhos
E descalçou meu pisar.
E sem me aperceber do universo,
Você chegou numa tarde:
No sopro da brisa suave,
No carinho tecido de leve.
Calado,
Sem fazer alarde.

 

O Meu Pacto com o Tempo

O meu tempo não é ontem,
Outrora, passado, pretérito
Perfeito, imperfeito,
Nem mais que perfeito.

Amanhã não é o meu tempo.
Na vida não cabe
O que há de ser, ano que vem,
Futuro quem-sabe?

O meu tempo é hoje, é já,
Agora, neste momento,
Presente indicativo
Sentido no vento.

O meu tempo
Não é o até aqui,
Nem o daqui pra frente,
Nem início ou fim,
É meio, é presente.

Este é o meu
Pacto com o TEMPO.

Marlene Blois

* TEMPO-SERÁ. BANDEIRA, Manuel. Poesia Completa e Prosa.
Rio de Janeiro, José Aguilar Editora, 1974, p.278.